A Opinião de Paula Mota
Inyenzi ou as Baratas
por Paula Mota
2025-03-26Desejaria escrever esta página com as minhas lágrimas.
Nunca nenhuma africana negra recebeu o Prémio Nobel da Literatura, e creio que Scholastique Mukasonga o merece, como magnífica memorialista que é, como sobrevivente de um povo perseguido e massacrado durante décadas, até mesmo por justiça poética, como homenagem ao milhão de tútsis chacinados pelos seus concidadãos hútus durante 100 dias, em 1994.
Em parte, esta é a mesma história que já tinha lido em “The Barefoot Woman”, dedicado a Stefania, a sua mãe, mas a verdade é que o massacre do Ruanda é o alicerce de toda a produção literária de Mukasonga, porque está intrinsecamente ligado à sua vida e à sua psique, à sua culpa de sobrevivente.
Eu contava e voltava a contar. Dava um total de 37.
É em honra desses 37 membros da sua família, pais, irmãos, irmãs, cunhados, cunhadas, sobrinhos e sobrinhos-netos, que a autora erigiu este “túmulo de papel”, na falta de muitas campas individuais e identificadas, visto que milhares de corpos foram enterrados em valas comuns, enquanto outros ficaram à mercê dos elementos e dos animais selvagens ou foram atirados aos rios. Quem, na altura, viu as imagens dos rios tingidos de sangue com cadáveres estropiados a boiar nunca poderá esquecer.
Houve, é claro, sobreviventes. Nenhum genocídio é perfeito.
Mukasonga abre “Inyenzi ou as Baratas” com um pesadelo recorrente e inicia a narrativa dos acontecimentos de forma cronológica, em 1959, com os primeiros pogroms dirigidos aos tútsis, quando tinha apenas três anos de idade, altura em que a família teve de abandonar a sua aldeia com uma panela de ferro fundido como única bagagem, para se exilar em Nyamata, uma zona de savana quase desabitada, infestada de moscas tsé-tsé.
Em 1962, o Ruanda tornou-se uma nação independente depois de décadas a ser administrado por potências europeias, tornando-se um símbolo dos efeitos de um colonialismo salobro e de um pós-colonialismo irresponsável, em que a Igreja Católica desempenhou um papel pernicioso, instigando umas etnias contra as outras, e a ONU, mais uma vez, não deu uma resposta atempada nem eficiente.
Bertrand Russell estava completamente só quando denunciou “o massacre mais horrível e mais sistemático desde o extermínio dos judeus pelos nazis”. A hierarquia católica, a antiga autoridade mandatária e as instâncias internacionais não tiveram mais nada a dizer sobre o caso a não ser condenar o terrorismo dos Inyenzi.
O terrorismo dos oprimidos e acossados, um cenário demasiado familiar e actual. Foi no início dos anos 60, com a subida dos hutus ao poder que surgiu o termo “Inyenzi” (barata), uma forma de desumanizar aqueles que se quer exterminar, como Hitler fez aos judeus, como Putin faz aos ucranianos, para conseguirem o apoio da população em geral. Apesar da discriminação e do sistema de quotas no ensino, Mukasonga e alguns dos seus irmãos ainda conseguiram estudar. A temporada passada num colégio de freiras entre 1968 e 1971 comprova o espírito de resistente que sempre a caracterizou.
Nós, as tútsis, ficávamos despertas. Esperávamos que todas as nossas colegas dormissem profundamente, que já não houvesse ninguém a ir à casa de banho, que as freiras estivessem definitivamente recolhidas. (…) Muitas vezes, estudávamos ali as lições e fazíamos os trabalhos de casa até de madrugada. Tudo o que aprendi em Notre-Dame-de-Citeaux, aprendi nas casas de banho.
Foi em 1973, quando já estudava na escola de assistentes sociais, que o cerco se apertou em torno dos tútsis e os pais de Mukasonga decidiram pôr dois dos filhos mais velhos, os mais instruídos, a salvo no Burundi.
Tínhamos sido escolhidos para sobreviver.
Depois de se formar, trabalhou em vários programas da Unicef, casou-se com um francês, teve dois filhos e encontrava-se em França quando se deu o último acto da limpeza étnica, em 1994.
Da morte dos meus, tenho apenas buracos negros e fragmentos de horror. O que mais faz sofrer? Ignorar como foram mortos ou saber como os mataram?
É aqui que o relato desta guardiã da memória familiar fica realmente pungente, já que, aos poucos, ficou a saber como morreram ou escaparam todos os seus entes queridos, e que se torna quase sufocante na linha temporal de 2004, quando finalmente ganha coragem para regressar ao “país dos mortos”, para visitar as ossadas reunidas na cripta escavada por baixo da igreja de Nyamata e voltar à casa dos pais, totalmente em ruínas e invadida pelo mato, onde se cruza com antigos vizinhos, pois tal como noutros pontos do mundo, devido à política de reconciliação, carrascos e sobreviventes têm de continuar a coexistir.
Estou sozinha numa terra estrangeira onde já ninguém me espera. Fecho os olhos e às recordações sobrepõem-se as coisas desaparecidas.
Inyenzi ou as Baratas, de Scholastique Mukasonga, Livros do Brasil, Setembro de 2024, tradução de Maria de Fátima Carmo
Os Dias do Ruído
por Paula Mota
2025-03-10Só que o mundo hoje não passa de uma enorme caixa de ressonância. Milhões de pessoas que falam para milhões de pessoas que falam para milhões de pessoas. O ruído sobrepõe-se a tudo, à História e à verdade e aos nossos sonhos mais profundos, e as vozes que o compõem são, quase sempre, indistinguíveis.
Sou fã de David Machado tanto quando tem por alvo o público adulto como quando escreve para os mais novos. É um autor realmente talentoso e original que cria enredos cativantes e personagens convincentes, como pude novamente verificar com “Os Dias do Ruído”, um livro extremamente actual e ousado que só fraquejou na terceira parte, quando Machado parece ter perdido o arrojo em detrimento de um final quase, quase feliz.
A primeira ousadia é a de escrever do ponto de vista de uma mulher, tão consciente dessa decisão que até aborda a questão do género quase no início.
A jornalista eslovena que nos últimos dias me acompanhou diz, como se me elogiasse:
- O seu livro não parece ter sido escrito por uma mulher.
(…) Duas questões que, uma vez respondidas, talvez solucionem alguma coisa:
1)Como é que escreve uma mulher?
2)Eu quero escrever como uma mulher?
Se os homens escrevem de forma distinta e distinguível das mulheres, não sei, mas que David Machado se sai muito bem a pensar como uma mulher é o maior elogio que posso fazer-lhe.
No dicionário, a definição de “herói” é: pessoa de grande coragem ou autor de grandes feitos. Por outro lado, uma “heroína” vem definida como: mulher de coragem, de sentimentos ou virtudes excepcionais. A coragem parece ser um atributo universal. Mas depois é como se uma mulher não precisasse de fazer nada para além de sentir as coisas certas.
Laura é uma fotojornalista com experiência em cenários de guerra que matou um homem prestes a perpetrar um ataque terrorista num café em Paris, atirando-a assim para as bocas do mundo.
Na gritaria da caixa de comentários, sou feminista radical e descontrolada, fundamentalista anti-islão, inimiga das religiões, de Deus e da fé global, fascista frustrada, caçadora de emigrantes, racista inveterada, fanática da extrema-esquerda, psicopata neoliberal.
Depois deste acto de autodefesa a ter catapultado para o estrelato, aquilo que mais almeja e alimenta, decide capitalizar a fama e escrever um livro que se torna um gigantesco êxito e a leva em digressão pelo mundo inteiro, em sessões de autógrafos, palestras e entrevistas.
Querem saber quem sou, alcançar os meus pensamentos mais íntimos e ter a certeza de que estou do lado certo da História. Querem também não ter medo de mim. Eu dou-lhes todas as respostas, para não as perder, para que não deixem de me olhar, para poder continuar a caminhar sobre as águas. Mas há sarcasmo em quase tudo o que digo.
Laura é uma autêntica <i>badass</i>. É corajosa, provocadora, desbocada, um pouco misantropa e narcisista…
A dada altura [a terapeuta] troçou:
- Estranho não é ter matado aquele homem, mas que isso não tenha acontecido antes.
(…) Por vezes penso naquilo e passo em revista todos os homens com que me cruzei até ao Amar, em busca daquele que deveria ter matado e não matei.
…uma protagonista magnética para uma história que expõe toda a podridão das redes sociais e que se enche de adrenalina quando ela começa a receber ameaças de morte. Apesar de serem anónimas, Laura tem uma certeza inusitada:
A minha argumentação é fraca e, embora, não o expresse, baseia-se numa necessidade íntima de que a pessoa que me quer matar seja uma mulher. O que quero dizer é isto: não há qualquer comoção na ideia gasta de ser ameaçada por um homem. Eu preciso que seja uma mulher para poder acreditar que a vida ainda esconde dimensões inesperadas, nada evidentes e complexas, que somos capazes de ultrapassar a dinâmica tão antiga e automatizada das relações de poder.
A coação, no entanto, torna-se insuportável e Laura refugia-se no último sítio que lhe ocorreria, aquele que tanto ela como a irmã deixaram para trás há muitos anos: a inóspita casa do pai, um velho contrabandista de Peniche. Apesar da relação conflituosa com o pai e de a mãe estar doente e raramente a reconhecer, é nessa “fortaleza”, nesse regresso às raízes que se sente finalmente em sossego, ainda que mais psicologicamente vulnerável.
Não ter de fingir encontrar-me num patamar de inteligência superior é um alívio, quase uma conquista espiritual, mas também uma tragédia interior. Nesta casa – nesta cidade? – ninguém espera de mim uma oratória política e culturalmente consciente, carregada de eloquência. Lá fora, no mundo, também não, eu sei (se abordar o assunto como uma equação matemática). Mas parecer mais do que sou foi o que fiz a vida toda desde que saí daqui. Ao ponto de se tornar parte do que sou. Como não chorar essa ausência?
Esta narrativa algo fragmentária e episódica, com temas polémicos explorados de forma transgressora, é um verdadeiro <i>tour de force</i> de David Machado que, no entanto, peca pela suavização do tom com a mudança de cenário.
Mas o esquecimento não é possível nesta época em que tudo está registado e as máquinas decidem sozinhas quando está na hora de olharmos para o passado. Como é que podemos ser humanos sem nos esquecermos?
Os Dias do Ruído, de David Machado, Dom Quixote, Setembro 2024
Viagem no Proleterka
por Paula Mota
2025-02-18Duas palavras acompanham-me como um estribilho: “viver” e “experiência”. Imaginam-se palavras para narrar o mundo e para o substituir. As duas palavras devem cumprir-se.
Disse Susan Sontag que Fleur Jaeggy é uma escritora selvagem, e eis o seu segundo livro publicado em Portugal a comprová-lo. Quem não gostou da jovem colegial desapegada de “Felizes Anos de Castigo”, escusa de lê-lo, já que é mais do mesmo mas a alguns graus abaixo de zero; quem, por outro lado, ficou hipnotizado com o bisturi com que a autora disseca uma infância e uma adolescência caracterizadas por um sentimento de orfandade, tem aqui um repasto tão farto quanto o minimalismo lhe pode oferecer.
É para o meu bem. Uma frase venenosa. Mas soa bem. Sei que aquela frase nunca foi de bom augúrio. Desde então piorou a minha situação de menor de idade. Há que proteger-se quando se ouvem ditames semelhantes. Quando se é refém do bem.
Quantas vezes pode uma pessoa ficar órfã? Em teoria, ao perder o pai e a mãe, mas no caso da protagonista de “Viagem no Proleterka”, tantas vezes quantas é abandonada e passa de mão em mão como um estorvo, até ser posta num colégio interno, e quando pensa que todos aqueles que decidiam o seu destino já estavam enterrados, surge a surpresa do final, que a faz pôr em causa toda a sua identidade.
Naquela época, não pensava nos mortos. Eles vêm tarde ao nosso encontro. Chamam quando sentem que nos tornámos presas e é hora de ir à caça.
Antes de mais, esta rapariga sem nome é a filha de Johannes…
A pessoa que me é inverosimilmente desconhecida. (…) Nenhuma intimidade. E, no entanto, um laço anterior às nossas existências. Um conhecimento no estranhamento total.
…um homem do norte que veio em jovem para o cantão mais a sul devido aos problemas de saúde do irmão inválido, onde conhece uma rapariga de origem italiana com quem se corresponderá mais tarde em francês, unindo nesta obra três das línguas da Suíça e polvilhando de termos alemães, de uma forma quase clínica, um texto originalmente escrito em italiano.
Quando a protagonista era muito pequena, a mulher de Johannes deixa-o e leva a filha, entregando-a depois à sua mãe para ir refazer a vida noutro continente.
Eram mulheres que governavam casas e pessoas. Longevas. Criados os filhos, as flores e as cartas tinham a primazia. As flores tornaram-se uma obsessão. Bem como as doenças e os parasitas. Que corroem folhas e pétalas. Mas as flores e as pétalas delas estavam quase sempre sãs, ao contrário dos jardins dos outros, que estavam doentes. (…) As mulheres daquela família tinham uma paixão autística por camélias, rosas e nada mais. Escassa propensão para os seres humanos.
Tendo apenas direitos de visita, não é mais sentimental a relação que Johannes tem com a filha.
Lacónico, Johannes apontava o que a filha fazia, aonde a levavam, o estado de saúde. Frases breves, sem comentários. Como respostas a um questionário. Não há ali impressões, sentimentos. A vida é simplificada, como se não existisse.
Sendo duas pessoas “em salas de espera”, é já um pai idoso e doente que convida a filha para um cruzeiro às ilhas gregas, a primeira e última viagem juntos, ele exausto e derrotado, ela prestes a fazer 16 anos, com as hormonas em ebulição e nenhuma disciplina.
O conhecimento é o único perdão, penso, que se pode alcançar.
Não há vislumbre de emoção em “Viagem no Proleterka”, escrito com uma esterilidade equiparável à das relações entre as personagens, uma frieza que aflige e se propaga. É um livro que pode ser apreciado pelo seu valor estético, o que me trouxe reminiscências de Marguerite Duras, ou, dependendo da experiência do leitor, como um proverbial dedo na ferida.
As crianças desinteressam-se dos pais quando são abandonadas. Não são sentimentais. São passionais e frias. De certa forma, algumas abandonam os afetos, os sentimentos, como se fossem coisas. Com determinação, sem tristeza. Tornam-se alheias. Por vezes, hostis. Já não são elas os seres abandonados, mas são elas que batem mentalmente em retirada. E vão-se embora. (…) Algumas crianças governam-se sozinhas. O coração, cristal incorruptível. Aprendem a fingir.
Viagem no Proleterka, de Fleur Jaeggy, Algaguara, Setembro 2024, tradução de Ana Cláudia Santos.
Os Armários Vazios
por Paula Mota
2025-02-04Como é que eu podia imaginar que isto acabaria assim? (…) Cuspir, vomitar para esquecer. A vida morre dentro de mim, do meu ventre. Quando, como. Narro-me. Ainda não tenho resposta.
Há uma característica única no conjunto da obra de Annie Ernaux que é a repetição. Como remói constantemente o seu passado, o que a leva, como ela mesma disse, a ser dissidente do seu género e da sua classe, a sua escrita é um jogo de espelhos. Por conseguinte, “Perder-se” e “Paixão Simples” são duas faces da mesma moeda, enquanto “Um lugar ao Sol”, “Uma Mulher”, “Vergonha” e “Não saí da minha noite” funcionam como uma tetralogia consagrada aos pais, e por fim, “Os Anos” abarcam tudo o que veio antes, juntando o individual e o colectivo. “Os Armários Vazios” não é excepção e surge como o contraponto ficcionado de “O Acontecimento”. Esta obra, contada por uma jovem universitária, realmente transmite num registo cru e acerbo a frustração de quem percorreu um longo e premeditado caminho como boa aluna para ascender socialmente a um meio diferente do seu, para, afinal, deitar tudo por terra devido a uma gravidez indesejada. É enquanto espera que faça efeito o tubo que a curiosa lhe enfiou no útero para lhe provocar o aborto clandestino que Denise se perde em pensamentos, primeiro pela falta de representação nos livros que devia estar a ler…
Não há lá nada sobre a minha situação, nem um parágrafo a descrever o que sinto agora, que me ajude a atravessar estes momentos horríveis. (…) Devíamos encontrar trechos escolhidos acerca de tudo, sobre uma rapariga de 20 anos que foi à fazedora de anjos, que sai de lá, sobre o que ela pensa enquanto caminha, quando se atira para cima da cama. Eu lê-los-ia e relê-los-ia. Os livros nada dizem sobre isso. Uma bela descrição da sonda, uma transfiguração da sonda…
…e, sem seguida, recuando até à tasca/mercearia da sua infância que tanto abomina, em que a esqualidez…
No inverno, na despensa das panelas, debaixo da escada da cozinha, de pé dentro da bacia de água com sabão que servia para lavar o corpo, os dentes, as partes baixas, tudo na mesma água sem enxaguar. E a minha mãe ainda a usava para esfregar o chão de tijoleira na segunda-feira seguinte.
…convive com opulentas imagens sinestéticas, na sua pueril relação de atração/repulsão pelo seu meio.
Cubos de caldo de carne embrulhados em papéis dourados como rebuçados de luxo, salgados, queimam o céu da boca. Cachos de bananas em vagas doces. (…) Posso inundar-me de odores intensos no canto votado à perfumaria, lírios-do-vale, chipre, em frascos presos com elásticos a caixas penduradas nas paredes, levantar as tampas de estojos de pó de arroz Tokalon.
É quando entra para um colégio particular e começa a conviver com pessoas mais polidas que seguem regras de etiqueta e usam um vocabulário mais refinado, que Denise se sente diferente e, por vezes, diminuída.
Os risos, a felicidade e, de repente, tudo azeda como leite estragado, vejo-me, vejo-me e não me pareço com as outras… (…) As coisas deixam de ser como antes. Isto, a humilhação. Foi na escola que a aprendi, que a senti.
Mas cedo arranja uma solução para diminuir esse fosso…
Foi assim que comecei a querer ter êxito, contra as raparigas da turma, todas as outras raparigas, as pretensiosas, as afetadas, as mariquinhas… A minha vingança estava ali, nos exercícios de gramática, de vocabulário, (...) nas contas de somar.
…inversamente proporcional ao abismo que se abre em casa, com descrições impiedosas do estabelecimento, da clientela e sobretudo dos pais.
Eu fingia simplesmente que não via, fechava-me no quarto com os meus livros, ignorava as bebedeiras no bar. Mas as coisas afetavam-me, mesmo assim. Chorar, à frente do espelho, de punhos cerrados, farta, farta. Treze, 15 anos.
Os livros servem, portanto, de refúgio, mas também como factor de distanciamento dos outros…
A verdade, a verdade estava escrita a preto e branco, nos livros, era feita à minha medida. Eu observava do alto, tinha pena de quem não conseguia ler e compreender uma só página.
…até chegar à universidade e compreender que nem a literatura a arrancará das suas raízes.
A única coisa que fiz foi engolir ódio, revoltar-me contra tudo, a minha cultura não passa de imitação. Resta-me enfiar o nariz na minha merda toda. Até a literatura é um sinal de pobreza, o recurso típico para fugir ao meu meio. Falsa da cabeça aos pés, a minha verdadeira natureza, que é feito dela?
Tenho sido muito crítica em relação a Annie Ernaux, pois considero-a arrogante em “Os Anos” e indiscreta quando escreve sobre os pais, mas é quando se espraia neste tipo de autoficção que gosto de lê-la.
Armários Vazios, de Annie Ernaux, Livros do Brasil, Abril 2024, tradução de Tânia Ganho
A Guerra Guardada
por Paula Mota
2025-01-22“A Guerra Guardada” é a transposição para papel de uma exposição que esteve patente no Museu do Aljube – Resistência e Liberdade, em 2022: “A Guerra Guardada: Fotografia de Soldados Portugueses em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique (1961-1974)”, que não vi ao vivo mas me parece um projecto muitíssimo bem-conseguido até mesmo em formato de livro, devido ao seu carácter multidisciplinar.
Partimos de memórias e de colecções fotográficas de homens comuns: soldados, sargentos e oficiais de baixa patente, representando a base da hierarquia militar. (…) Este grupo de homens trouxe consigo histórias e fotografias diferentes da visão autorizada pelo Estado Novo: imagens do quotidiano militar e de soldados fora de serviço (a beberem, a jogarem futebol, a passearem), encenações de pose bélica, retratos de populações africanas, fotografias de armamento e do rasto de destruição deixado pela guerra.
Assim, sendo, temos as “Fotos Contadas”.
Tocou a reunir e formaram-se duas filas para receber o pré, uma enorme e outra mais pequena. Então o que era? Em 1966, havia soldados de 1ª e de 2ª! Na fila maior, eram só negros que não sabiam ler e que foram incorporados nas forças portuguesas como praças de 2ª, a receber metade do salário. Na fila mais pequena, estavam alguns mulatos e negros que tinham a 4ª classe completa, e todos os brancos, mesmo os que eram analfabetos. Para ser praça de 1ª bastava ser branco! Foi aí que comecei a desmanchar o castelo de cartas em que estava metido.
As “Fotos Faladas”, acompanhadas de um QR Code com ligação a um vídeo do Youtube onde se ouve o autor de cada foto a contar a respectiva história. Creio que é impossível escutar o testemunho do furriel Gamito em “Como se fosse meu filho” sem algum grau de comoção, ainda para mais acompanhado pelo texto do escritor/tradutor Paulo Faria, “Chorar como homens crescidos”, que fez também chorar esta mulher crescida.
Como foi possível deixarmos estas histórias tantos anos ao abandono, tão sozinhos com os seus fantasmas, à mercê dos oportunistas que se mascaram de camuflado e se fazem porta-vozes espúrios da dor alheia, falando em “Deus, pátria e família” com o descaramento de quem acha que os tempos estão maduros para reciclar o entulho? Como é possível alguém atrever-se a confundir a justeza das reivindicações dos veteranos da guerra colonial com a justeza da guerra colonial?
Em “Avessos”, vêem-se apenas as dedicatórias no verso de um conjunto de fotografias, desde as mais formais às mais pessoais.
O quê? Se este avião é meu? Não Miquita! É o avião que me traz sempre as tuas cartas fresquinhas.
Ficaria contente com um livro inteiro de fotografias e de relatos dos seus autores ou protagonistas, mas este é enriquecido com vários textos com capacidade crítica sobre o conflito nas ex-colónias…
Certamente que apenas uma minoria dos mais de um milhão de portugueses mobilizados entre 1961 e 1974 para este conflito esteve envolvida em operações ou episódios de violência indiscriminada. Mas não terão sido assim tão poucos os que estiveram, grupo em que se incluem aqui os militares do quadro que tinham ainda uma carreira pela frente depois do adeus às armas em África. A teia de cumplicidades entre a PIDE e as forças armadas era por demais conhecida, e foi certamente um dos fatores por detrás da atitude globalmente indulgente do regime democrático para com uma instituição-chave na sustentação da ditadura e do colonialismo.
- “A guerra e os seus fantasmas”, Pedro Aires Oliveira -
…a correspondência trocada entre os combatentes e a metrópole…
O Estado Novo foi incapaz de controlar o que era contado e mostrado neste fluxo ininterrupto de correspondência, que chegou a quase dez toneladas diárias.
- “Olhar a guerra entre a antropologia e a história”, Maria José Lobo Antunes e Inês Ponte -
…a censura e a manipulação da comunicação social da época…
A televisão foi um canal utilizado pelas Forças Armadas para estimular a adesão ao esforço de guerra. A primeira estratégia utilizada neste sentido foi a exibição do horror, sobretudo no ‘Telejornal’ e em documentários, alguns nunca exibidos. (…) Esta exibição televisiva foi complementada, desde o início, com a expressão do cuidado, sobretudo através de campanhas de solidariedade, mediadas pelo ‘Telejornal’, nas quais foram ganhando preponderância as actividades do Movimento Nacional Feminino.
- “Que guerra passou na televisão portuguesa”, Rita Luís -
…e toda a engenharia social criada pelo regime para justificar o colonialismo e alimentar a máquina de guerra.
Em meados do século XX, Portugal era governado por um regime autoritário e conservador, cujo aparelho de propaganda e censura garantia a unidade do discurso público sobre o país e o mundo. Vivia-se então a ficção de unidade e harmonia racial de uma nação espalhada “do Minho a Timor”. A simplificação e popularização do lusotropicalismo do sociólogo brasileiro Gilberto Freyre permitiu consolidar um discurso de excepcionalismo que ainda hoje perdura.
- “Fotografia, censura e imaginação da guerra”, Maria José Lobo Antunes -
Um trabalho de excelência das antropólogas Inês Ponte e Maria José Lobo Antunes (filha de um veterano da Guerra Colonial, António Lobo Antunes), que prima pela clareza e pelo poder de síntese face a temas deveras complexos.
Quando os proprietários desaparecem, as fotografias abandonam o seu estatuto de objectos de afecto. Sem guardiões, deixam de habitar o lugar de uma narração praticada e transformam-se em fotografias-órfãs.
Eu, que pertenço à geração do pós-memória, acho imprescindíveis todas as reflexões sobre um assunto que durante tanto tempo foi silenciado e recalcado, ainda que acredite que seja tarde de mais para evitar este reabrir de feridas espoletado por qualquer gatilho de uma sociedade que tudo questiona, e ainda bem que o faz.
A Guerra Guardada- Fotografia de Soldados Portugueses em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, 1961-1974, de Maria José Lobo Antunes e Inês Ponte, Tinta da China, Setembro de 2024
Os Rostos
por Paula Mota
2025-01-02Porque havia, pensava ela, algo em cada rosto que ofendia e desafiava o mundo da mesma forma que a caligrafia ilegível de um médico ofende a autoestima do farmacêutico. Permitiu que um pensamento sereno e triste lhe deslizasse por entre as folhas do livro.
Creio que a leitura de “Os Rostos” será mais enriquecedora para quem puder contextualizá-la através de “A Trilogia de Copenhaga”, as memórias de Tove Ditlevsen, mas mesmo não me apercebendo de todos os pontos de contacto entre as duas obras, consigo avaliar esta que agora terminei de forma autónoma sobretudo pela escrita excepcional, apesar de um ligeiro abuso de metáforas e comparações.
Todos os dias cheirava os livros como um cão fareja nas árvores e nas pedras os odores que o instigarão a levantar a perna e urinar. (…) Provava-os com minúcia, deixava-os deslizarem-lhe pela língua como uma conhecedora de vinhos experiente, arrancava-os do contexto e polvilhava-os com as suas conclusões e ideias desavergonhadas. Esguia e curvada com um ponto de interrogação, tirou um livro de uma das prateleiras mais baixas.
São, por exemplo, soberbas as inúmeras passagens sobre o tema que dá nome à obra e que, tal como as vozes que ouve, são sintomáticas da desagregação mental da protagonista.
Durante o dia, os rostos estavam sempre a alterar-se, como se ela os visse refletidos em águas agitadas. Olhos, nariz, boca, um triângulo tão simples que, no entanto, continha um número infinito de variações. Como era possível? Há muito que evitava sair de casa, porque a imensidão de rostos que povoavam as ruas a assustava. (…) O novo rosto não era nem demasiado grande nem demasiado pequeno, e conservava vestígios de uma vida que não era a do seu novo dono. No entanto, quando uma pessoa se lhe habituava, surgiam nele traços do rosto original, tal como um papel de parede antigo que se rasga e expõe fragmentos da camada escondida abaixo dele, ainda fresca e bem preservada e repleta de recordações dos anteriores ocupantes da casa.
Lise, uma celebrada autora de livros infantis, é uma narradora questionável cujo relato dos acontecimentos nunca é claro na sua proveniência, porque se trata de uma mulher em crise, ou melhor, numa convergência de crises identitárias…
Nunca quis outra coisa. Não quero saber do mundo para nada. Só quero escrever e ler, só quero ser eu própria.
…como escritora, como mãe, como mulher…
Gert encarava a sua fama como uma afronta pessoal. Afirmava que não podia ir para a cama com uma obra literária e traía-a com grande empenho, mantendo-a meticulosamente informada sobre as suas conquistas amorosas.
…e como ser racional.
- A realidade – disse ele – existe apenas na sua mente. A vida correr-lhe-ia muito melhor se metesse isso na cabeça de uma vez por todas. A realidade não tem existência objetiva.
- Então onde é que eu existo? – perguntou ela.
- No consciente de outras pessoas – disse ele com paciência.
Depois de uma tentativa de suicídio, Lise é internada numa instituição psiquiátrica onde assistimos aos seus surtos psicóticos. Tendo em conta que estamos num país nórdico, não há as habituais descrições de más condições e maus tratos, mas as imagens usadas por Tove Ditlevsen transmitem um desassossego que nem o lirismo consegue mitigar.
Tateavam com uma mão ao longo da parede, que se inclinava um pouco sobre o corredor, e sabiam que um dia, no seu cansaço amarelo de abandono, a dita parede cairia sobre elas e as esmagaria. (…) Depois, esqueciam-se daquilo que lhes atraíra a atenção e retomavam o seu trabalho árduo de separar as horas umas das outras, para que a noite não gotejasse sobre elas a meio da tarde.
Filtradas pela mente perturbada de Lise, há situações da vida familiar extremamente incomodativas que, no final, nos levam a duvidar do que lemos: seriam a realidade ou fruto de um transtorno?
Os Rostos, de Tove Ditlevsen, Dom Quixote, Julho de 2024, Tradução de João Reis
Caruncho
por Paula Mota
2024-11-26Disso morreram todos nesta família, de ódios seus e dos demais, mas sempre de ódios.
“Caruncho” é um daqueles livros que exigem ar puro, muito sol e talvez até um banho de sal grosso para nos libertar das más energias habilmente condensadas em apenas 100 páginas. Layla Martínez aprendeu bem todas as lições: as de Shirley Jackson com as suas casas assombradas e habitantes proscritas…
No andar de cima começaram a ouvir-se ruídos como o arrastar de móveis e o abrir e fechar de gavetas. Toda a casa estava furiosa com nós duas, notava-se em cada ladrilho e em cada tijolo.
…as do realismo mágico, as do gótico sulista, as das figuras das bruxas…
Esse boato sim enraiveceu a velha porque se dissessem que estava demente era-lhe indiferente mas não consentia que afirmassem aquilo dos gatos afinal ela gostava tanto deles até os tratava por você quando a velha nem o senhor tratou por você no tempo em que o serviu.
…as do macabro religioso…
As rezas caíam-lhe dos dentes sem que eu as ouvisse mas eu sabia que ela pedia a Santa Bárbara decapitada pelo pai no cimo de uma montanha a Santa Cecília banhada em água a ferver a Santa Maria Goretti assassinada quando a tentavam violar a todas as santinhas mortas pelas mãos de homens raivosos.
…e criou um livro original e pujante, protagonizado por quatro magníficas mulheres zangadas. Numa sociedade em que ainda hoje se lida mal com mulheres que levantam a voz, as chamadas histéricas, é refrescante ver estas que não se deixam espezinhar e decidem aplicar a boa e velha justiça pelas próprias mãos. Acho a vingança um desperdício de energia, mas ler sobre ela dá-me uma satisfação indiscritível.
Só que o meu pai não sabia que iria ficar trancado na prisão que estava a construir. Quando a minha mãe percebeu que nunca poderia sair daquele espaço, deixou de pedir aos santos e começou a falar com as sombras.
Nesta obra, parece-me até haver uma quinta protagonista, já que a casa de família é uma entidade própria, um poltergeist maligno que embebeu todo o rancor sentido entre as suas quatro paredes e que cria a simbiose perfeita, vivendo das suas proprietárias e alimentando-as numa sobrevivência autofágica.
Ainda não percebi o quê, perguntei, pensando que agora sim viriam as arranhadelas e os insultos e as pancadas porque não podemos açular a velha sem esperar que não se atire a nós. Mas não aconteceu nada disto, nela havia apenas desalento e um pouco de raiva, só um pouquinho, o suficiente para dizer não percebeste que desta casa não sai ninguém.
“Caruncho”, no entanto, não é apenas uma obra manifestamente feminista, já que o fosso entre classes é por demais evidente e explorado até às últimas consequências.
Mas detestam-nos a todos por igual sentem o mesmo asco por todos nós e esse asco toma conta de nós e envenena-nos e trazemo-lo num lugar tão profundo que acabamos por pensar que é nosso mas não é.
O termo “fenómeno” que a editora utiliza para descrever “Caruncho” não é, desta vez, um mero truque publicitário. Este fenómeno paranormal tem um subtexto subversivo que funciona tanto para quem deseja só uma boa história de terror como para quem procura uma mensagem política.
Eu amaldiçoava os parentes, os guardas civis, os padres, a quem quer que fosse, com todo o ódio que havia nas minhas entranhas e nas da casa porque sabia que no dia em que nós, os pobres, começássemos a cobrar dívidas, muitos não teriam sequer uma pocilga onde se esconder.
Caruncho, de Layla Martínez, Antígona, Março de 2024, tradução de Guilherme Pires
Caro Michele
por Paula Mota
2024-11-15A cultivar a memória talvez sejamos tu, a tua mãe e eu, tu por temperamento, eu e talvez a tua mãe, por temperamento e, porque, na nossa vida presente, não existe nada que valha os lugares e os momentos que encontrámos ao longo do percurso. Enquanto eu os vivia e os guardava, esses momentos e esses lugares, eles tinham um esplendor extraordinário, mas porque eu sabia que seria levado a recordá-los.
-Osvaldo a Angelica
Na edição portuguesa desta obra de Natalia Ginzburg, a escolha do título talvez não seja a mais apropriada, já que “caro” (traduzido à letra do italiano) em vez de “querido”, como nós diríamos, denota uma distância e uma cerimónia que não existe no original, tratando-se principalmente de cartas de uma mãe, de uma irmã e de uma ex-namorada a um jovem de 22 anos que, primeiro, vive num estúdio onde pinta e, mais tarde, parte inesperadamente para Inglaterra, num momento de agitação política. Se aceitarem esta proposta de leitura, evitem a sinopse, visto que conta aquilo que acontece somente a 20 páginas do final.
Apesar de ser o ponto de convergência de todas as personagens, Michele é um protagonista invisível, pois tudo o que sabemos dele é através do que decide revelar em pequenas missivas, que pouco mais são do que instruções, e através daquilo que é referido ou contado em segunda mão por aqueles que lhe são próximos. São as três mulheres da sua vida as verdadeiras donas desta obra: a ex-namorada Mara, a irmã Angelica e a mãe, Adriana. Mara é uma jovem desaustinada mas muito viva que se vê a braços com um recém-nascido que poderá ou não ser de Michele.
Não é que o dinheiro resolva alguma coisa da tua solidão, do teu destrambelho, da tua vadiagem, da tua tontice. Mas todos nós somos destrambelhados e tontos numa parte algures dentro de nós, e, algumas vezes, fortemente atraídos pela vadiagem e por respirar nada mais do que a própria solidão.
-Angelica a Mara
Angelica tem a sua própria família e os seus problemas pessoais, mas serve de intermediária e mensageira, uma grande aliada do irmão.
Provavelmente, vai-se falando em voz alta e dando grandes risadas, para termos a certeza de não ter perdido a capacidade de pensar no presente e a faculdade de falar e rir alto. Mas mal nos calamos por instantes ouvimos o nosso silêncio.
-Angelica a Mara
Por fim, Adriana. Adriana... Sempre que Adriana escreve, sempre que Adriana fala ou age, invade-me uma tristeza indescritível.
Mas devo também dizer que perdemos naquele dia um tempo precioso. Podíamos ter-nos sentado e interrogado mutuamente sobre coisas essenciais. Teríamos sido provavelmente menos felizes, talvez tivéssemos sido, inclusivamente, infelicíssimos. Todavia eu agora recordaria aquele dia não como um dia feliz, mas como um dia verdadeiro e essencial para mim e para ti, destinado a iluminar a tua e a minha pessoa, que sempre trocaram palavras de natureza deteriorada e nunca palavras claras e necessárias, mas, pelo contrário, palavras cinzentas, formais, flutuantes e inúteis.
- Adriana a Michele
Quando se divorcia do marido, este decide que pode abdicar das quatro filhas, mas não de Michele, que é portanto criado longe da mãe.
Nem sequer se interessava pelas tuas irmãs. Só se importava contigo. E o seu afecto por ti parecia dirigir-se não a ti, mas a uma outra personagem que tinha inventado e que não se parecia em nada contigo.
- Adriana a Michele
Mais tarde, Adriana tenta ser amiga do ex-marido, mas isso só lhe traz dor.
É verdade que não costumávamos trocar palavra quando nos encontrávamos. Todavia, agora dou-me conta de que não era necessário trocar palavras. Elas [as memórias] estavam presentes naquela hora que passávamos no café Canova e que eu achava opressiva e interminável. Não eram memórias felizes, porque eu e o teu pai nunca fomos muito felizes juntos (…) Não se amam apenas as memórias felizes. A certa altura da vida, percebemos que amamos as memórias.
-Adriana a Michele
Compra uma casa no campo, na esperança de viver com o seu novo namorado, mas nada corre como planeia, as filhas mais velhas casam-se e tornam-se independentes, as mais novas passam pouco tempo em casa, e acaba por acolher a cunhada mesmo não a suportando, porque a solidão é um tormento.
Neste pentágono de ligações, não posso deixar de mencionar Osvaldo que serve de ponte e de apoio aos restantes intervenientes, um homem bonacheirão e misterioso, mas que deixa sempre um rastro de melancolia atrás de si.
Na sua ausência acontece-me detestá-lo ao recordar a sua voz calma e as suas respostas tão serenas e fugidias. Mas quando ele está, fico tranquila e aceito os seus silêncios e as suas respostas. Trouxeram-me os anos uma espécie de mansidão e resignação.
-Adriana a Michele
O niilismo destas personagens perante a noção de felicidade é desconcertante e infeccioso, e foi com um enorme vazio que terminei esta obra que, em termos de angústia, consegue superar “Foi assim”, que era até agora o meu favorito desta autora italiana.
Desejo-te tudo de bom e espero que sejas feliz, admitindo que a felicidade existe. Eu não acredito que exista, mas os outros acreditam, e não está dito que não sejam os outros a ter razão.
Caro Michele, de Natalia Ginzburg, Relógio d’Água, fevereiro de 2024, tradução de Luísa Feijó
Pedra e Sombra
por Paula Mota
2024-11-08Quando aqui cheguei, passeava de noite por entre as sepulturas, abraçava as lápides seculares e perguntava-lhes: “És a minha testemunha?” Os velhos mestres chamavam assim às lápides, porque todas elas estão ali a testemunhar a nossa existência.
É curioso que deteste autores que explicam demasiado e não nos deixam ler nas entrelinhas, mas em “Pedra e Sombra” tenha sentido falta das cenas que ficaram por escrever, pois se não há justiça divina e o <i>karma</i> nem sempre funciona, seria uma catarse ver realmente o que aconteceu aos vilões deste romance em vez de ter de usar a minha imaginação. Burhan Sönmez abre esta obra com uma perseguição aterradora, em que a polícia vai no encalço de uma jovem até um cemitério, onde só encontra o velho Avdo, escultor de lápides tumulares que lá vive, interação essa que termina terrivelmente mal para o idoso e o seu cão devido ao carácter vingativo do chefe, Cobra. Está-se na década de 80 em Istambul, numa época de grande perturbação política e social na Turquia, depois do golpe militar de 1980, mais precisamente em 1984, ano não só de protestos universitários fortemente reprimidos mas também aquele que marca o início da última fase do conflito com os separatistas curdos.
Com este frio, os prisioneiros apertam-se, agacham-se e dormem uns por cima dos outros como ovelhas no curral. Cheiram a pus e a urina. Quem se aproximasse na escuridão não os distinguiria de um rebanho de animais. No entanto, como um diamante que brota luzindo do carvão, no meio deste rebanho apareceu uma rapariga muito bonita. Os homens da unidade que há pouco se juntou a nós agarraram nela, levaram-na até ao rio e uma dezena deles violou-a. (Genocídio de Dersim, 1938)
Burhan Sönmez é um autor turco de ascendência curda que também foi detido em 1984, quando era estudante, e foi alvo de uma tentativa de assassinato pela polícia turca quando já era advogado de direitos humanos, situação que o levou a exilar-se no Reino Unido, sendo hoje o presidente do PEN International, organismo que defende a liberdade de expressão e a cooperação entre escritores do mundo inteiro.
Neste épico moderno, Sönmez revela uma escrita clássica, o que torna a leitura fluida, também bastante sensível, que me enlevou de imediato, mas consegue elevar “Pedra e Sombra” através de um formato narrativo desafiante que me manteve sempre na expectativa em relação aos saltos temporais. Se a trama protagonizada por Avdo se inicia em 1984 no cemitério de Merkez Efendi e termina em 2002 no mesmo exacto local, viaja por toda a Turquia e por outros locais do Mediterrâneo, podendo no mesmo capítulo o friso cronológico passar de 1940 para mil novecentos e cinco anos antes e acabar numa referência como “Hoje, de noite”.
A existência é provação, e os sufis sabiam-no: a cela, a cidade lá fora, a prisão são todas elas uma só coisa. O mundo é uno; o resto são apenas distâncias.
A pedra basilar desta obra é a identidade, seja ela pessoal, nacional, cultural ou religiosa. Avdo perdeu-se da mãe em criança, desconhece quem seja, mas devido à sua bela voz, que usa para ganhar a vida, chama a atenção de outro artista de rua que o encaminha para Josef Usta, o canteiro do cemitério que moldará o seu destino.
Isa sorriu e, fitando o rapazinho dos pés descalços, pronunciou a palavra “mãe”.
- Repete – volveu o miúdo, com a felicidade espelhada no rosto – Repete-a em todas as línguas: Anne, Dayê, Emo, Umm, Mayrig, Mama.
Isa pronunciou a palavra em turco, curdo, siríaco, árabe, arménio e grego.
Em 1965, depois de 26 anos de errância e de muitas provações, por razões do coração, Avdo decide instalar-se e exercer o seu mester no cemitério de Merkez Efendi.
Avdo compreendeu o motivo da serenidade que sentia invadi-lo. Tinha encontrado o sítio onde morreria. Percebeu que enquanto deambulara a vida inteira à procura do lugar onde viver, o que na realidade procurava era o lugar onde morrer.
É também por razões sentimentais que acaba por conhecer o seu único amigo, o Marinheiro Loiro, que chega ao cemitério para encomendar uma lápide para o pai que quisera ser ali enterrado para ficar junto à sua primeira noiva, uma jovem arménia que tivera de deixar ao partir para a Primeira Guerra Mundial. Como “Pedra e Sombra” tem um carácter cíclico, repetem-se também as histórias de amores desencontrados, havendo apenas uma com um desfecho feliz que, no entanto, me pareceu algo forçado. Quando conhecemos Avdo, ele tem em mãos a lápide de Isa, o Homem dos Sete Nomes, um homem sem memória, que encarna a ideia da unidade na diversidade.
Ao longo de 40 anos deambulou entre Jerusalém, o Cairo, Creta, Atenas, Roma e Istambul, e em cada lugar adoptou uma nova religião e um novo nome. Quando nesse dia o levaram para o cemitério, o caixão ia coberto com um lenço amarelado e um papel com sete nomes: Ali, Haydar, Isa – como Jesus, Moisés, Maomé, Jonas, Adão.
É ele que deixa a Avdo um diário escrito entre 1938 e 1966, dirigido a uma Miskal, que serve para ligar a narrativa interna à narrativa maior, num enquadramento que não me parece tão bem conseguido como o resto desta esplêndida obra.
Também eu sou uma sombra, e só me apercebi disso com o avançar da idade. Feita de coração, aprisionada no vórtice da nostalgia e da dor. A Lua ilumina agora a pedra que tenho diante de mim. A minha sombra cai sobre a pedra. Isto é um sonho, a pedra não existe, eu não existo, só existe a sombra.
Pedra e Sombra, de Burhan Sönmez, Livros do Brasil, abril de 2024, tradução de J. Teixeira de Aguilar
Advento
por Paula Mota
2024-10-14Os seus sonhos estavam profundamente enterrados, escondidos, sob a passagem do tempo. Aqueles sonhos. Só Deus e ele próprio os conheciam. E as montanhas, às quais os confessava, em gritos, no seu desespero. Mas deixara-os para trás logo na primeira viagem.
Não sei exactamente o que define um clássico, mas creio que se o seu cariz universal e intemporal contribui para esse epiteto, “Advento” tem todo o direito de ser classificado como um clássico moderno. Ainda que seja indubitavelmente produto do seu tempo (1936) e do seu país (Islândia), o seu carácter alegórico e religioso faz dele não só um bonito conto de Natal, mas também uma história com várias dimensões.
Há 27 anos que, no primeiro domingo do Advento, Benedikt se faz à montanha em busca das ovelhas que ficaram perdidas por lá nas recolhas prévias de Outono…
Sentia uma certa responsabilidade por elas. Afinal, também eram seres vivos.
… somente na companhia dos seus leais companheiros Leão e Nodoso, um cão e um carneiro.
Tinham passado a conhecer-se, pouco a pouco, com aquele conhecimento profundo que talvez só seja possível entre espécies de animais muito diferentes, em que nenhuma sombra do seu próprio eu, do seu próprio sangue, dos seus próprios desejos ou vontades o possa confundir ou de certo modo obscurecer.
Se é claramente bíblica a referência ao pastor e às ovelhas tresmalhadas, não o é menos a ideia de santa trindade formada por este grupo. Benedikt é um homem bom e íntegro que pertence a uma pequena comunidade que se pauta pela solidariedade e pela entreajuda e, durante a sua expedição, não recusando auxiliar quem precisa, acaba por se atrasar, ser apanhado por um nevão, vendo, por conseguinte, os mantimentos cada vez mais depauperados e a sua vida e a dos seus companheiros em risco devido às temperaturas negativas e à fome.
Há algo de sagrado e inviolável na relação do homem com os animais. Um belo dia, Benedikt teria de tomar uma decisão: uma bala para um, uma faca para o outro. Era o preço a pagar. A responsabilidade a assumir. Um homem tornava-se não só dono das suas vidas, mas também das suas mortes. De acordo com o seu melhor julgamento e com os ditames da sua consciência. A vida era assim mesmo. Só quem passava por isso sabia o quanto doía.
“Advento” pode ser lido de uma perspectiva religiosa ou filosófica, como uma saga em miniatura, como uma lição de vida e de amizade entre pessoas e entre humanos e animais, numa narrativa que é uma luta contra o tempo, seja ele meteorológico, devido às condições agrestes, seja ele cronológico, pois o desejo de Benedikt é regressar à aldeia a tempo de aí passar o Natal.
O Advento! Sim… Benedikt encheu a boca com a palavra.(…) É verdade que não sabia ao certo o que significava, mas era uma palavra que continha, em si, expectativa, antecipação, preparação, e isso ele entendia. Com o passar dos anos, aquela palavra passara a conter, para ele, toda a sua vida.
Advento, de Gunnar Gunnarsson, Cavalo de Ferro, Março 2024, tradução de João Reis
A Forasteira
por Paula Mota
2024-09-12A morte fascina-os. Abordam o suicídio com uma naturalidade assombrosa, como se não fosse nada de especial, como quem desata a falar sobre a chuva que não chega, como se não houvesse uma separação entre a vida e a morte. Poucos haverá sem um parente ou algum conhecido que tenha tirado a vida a si próprio, na freguesia aqui do lado ou na seguinte. Os que se matam são protegidos pelos outros mortos, pela tradição agónica dos que os procederam. Falam dos suicidas com respeito, com uma certa veneração, como se um halo de mistério os situasse acima dos vivos.
É verdade que o assunto do suicídio me interessa, mas desta vez fui apanhada desprevenida. Conquistada pelo título e pelo género neorrural que os espanhóis exploram de forma tão existencialista, não contava com um enforcado logo no primeiro capítulo, mas, como cedo nos elucida a protagonista, “esta é uma terra de suicidas”. Aliás, nesta terriola do sul de Espanha, o suicídio parece ser quase uma maldição de família, uma família com segredos, uma família com um casarão, uma família no final da linha. A quem me refiro? Aos Marotos ou aos Maldonados, cujos terrenos contínuos se confundem? É efectivamente esse um dos pontos fortes de “A Forasteira”, uma obra muito atmosférica, de frases bem torneadas e de leitura viciante.
Depositamos amor nos seres, nas coisas, nos lugares, e depois não sabemos o que fazer com o que resta nas mãos por usar. Queima-nos as palmas.
É “Pedro Páramo” de Juan Rulfo que Angela está a ler, o que poderá dar pistas a quem conhece o livro, mas foi com duas excelentes novelas espanholas que estabeleci paralelismos durante esta leitura: “Os Santos Inocentes” de Miguel Delibes e “Caruncho”, de Layla Martínez. Em todas elas existe um fosso entre classes, a família rica, a dos “meninos”, para a qual uma família modesta se vê forçada a trabalhar, aliado a um forte sentimento de injustiça ou de humilhação e, por conseguinte, um equilíbrio que será reposto através da vingança. Para quem é sensível a estas questões, a última gota para Angie envolve os seus cães.
De madrugada, ouço murmúrios, os ecos de tudo o que foi dito entre estas paredes, estes velhos muros que me salvaram a vida e que a minha família quase perdeu. Os Marotos gostavam demasiado de jogar às cartas, de mulheres, de vinho. As casas têm memória. Às vezes, os mortos riem.
Angie, a “chalada do casarão”, é uma mulher com cerca de 50 anos que voltou para a terra da família depois de ter estado muitos anos emigrada em Inglaterra. Vivendo de um subsídio, do cabaz social entregue pelo padre local e de uns biscates sazonais e tendo por único amigo um imigrante africano, é uma solitária que tem como companhia dois cães, o vinho e a música.
As canções podem lixar-nos a vida. “With no lovin’ in our souls and no money in out coats. But, Angie, you can’t say we never tried.”
Ao domingo à tarde, junta-se aos outros desajustados, os “sultões do swing” na tasca do Tomás, “outro mono como eu na arrecadação da aldeia”, um velho hippie que põe a música certa.
Os Stones. Os Kinks. Os Smiths. Também os Pink Floyd e os Genesis, conforme o andar da tarde. Os Clash. “I fought the law and the law won”, lutei contra leis injustas, mas a lei derrotou-me. Passa todas as canções que ainda se ouvia quando cheguei a Londres e a bruxa da Thatcher, que já arreara forte e feio nos mineiros, andava atrás dos trabalhadores das artes gráficas.
“A Forasteira” representa uma realidade muito semelhante à do interior de Portugal, não só nas décadas de 60 e 70, com o abandono do campo e o êxodo para as grandes cidades, como também nos dias de hoje, com as aldeias e as vilas desertificadas ou para lá a caminharem a passos largos.
Conheço a solidão angustiante da paisagem, a gama completa de ocres, os verdes que brincam a ser azuis onde se encavalitam as lombas. Sei como conspiram os murmúrios – um rasgado de cigarras, toupeiras a escavar, o crepitar dos cardos penteados pelo vento – para espessar ainda mais o silêncio. O tempo anda há séculos encharcado num presente eterno no qual cada momento é idêntico ao seguinte.(…) A planície esvazia-nos a cabeça. Se sucumbirmos ao seu doce abraço, vai-nos despojando do corpo, naco a naco. A terra faminta reclama o que lhe pertence, o que nunca devia ter saído daqui com a diáspora da fome.
A Forasteira, de Olga Merino, Quetzal, Agosto 2024, tradução de Margarida Amado Acosta
A Filha Única
por Paula Mota
2024-08-19Nenhuma mãe sabe quanto tempo viverão os seus filhos. Há até uma expressão segundo a qual só os tem por empréstimo, e o tempo desse empréstimo pode durar de algumas horas a várias décadas.
Este livro é difícil. Mesmo escrito no tom neutro da mexicana Guadalupe Nettel, fez-me engolir em seco várias vezes, ainda que não seja esta a minha experiência de maternidade, e jamais o aconselharia a quem esteja grávida ou a pensar engravidar.
Laura e Alina são duas amigas com planos de vida diferente: a primeira faz uma laqueação de trompas porque não quer ter filhos, a segunda casa-se e tem de fazer um tratamento de infertilidade para engravidar. Ao 7º mês de gestação, recebe a informação que ninguém quer ouvir: o cérebro da bebé não se desenvolveu como devia, pelo que provavelmente morrerá à nascença. Assistimos, então, a dois terríveis meses até ao parto e a todo o sofrimento que se lhe segue.
Além de uma probabilidade muito maior de que a sua filha morresse em breve, Alina tinha de enfrentar outra grande ameaça: a de que vivesse muitos anos e ela fosse forçada a lidar com isso, não como quem cuida de uma criança, mas como quem cuida de um doente terminal a quem é preciso alimentar, mudar as fraldas, administrar medicamentos. Alguém que, apesar de não ter esperança de sobrevivência, nunca mais se vai embora.
Em paralelo, temos a relação que Laura estabelece com a vizinha do lado, mãe de um menino agressivo que não consegue superar a morte do pai.
“A Filha Única” é uma obra sobre vários tipos de mães em diferentes fases da vida e com dificuldades específicas: a mãe de Laura...
Essa tendência que nós, as filhas, temos para ver nos erros das nossas mães a origem dos nossos problemas, e essa tendência que têm as mães de considerar os nossos defeitos como a prova de um possível fracasso. Para evitar os conflitos, optei nos últimos anos por não revelar de modo nenhum o que penso, por ocultar as minhas filias e as minhas fobias, por me tornar o mais opaca possível para assim me esquivar aos seus comentários, mas nunca me teria ocorrido prescindir dela.
...a mãe afectiva que não pode ter filhos biológicos, a mãe deprimida que não consegue cuidar do filho e a mãe que só quando a filha entra para o infantário descobre que ela sofre de um défice cognitivo...
Penso que se chega a um ponto em que todas as mães percebem uma coisa: temos os filhos que temos, não os que imaginámos ou os que gostaríamos de ter tido, e é com eles que temos que lidar.
...e até um casal de pombas que constrói o ninho na varanda da protagonista, imagem que alguns leitores poderão achar de um simbolismo exagerado, mas que eu achei estar dentro do espírito do livro.
Quanto mais eu olhava para aquele pássaro, mais horrível me parecia. Não tinha nenhuma parecença com os pais. As penas não eram cinzentas, azuis ou brancas, mas sim escuras e ralas, especialmente no pescoço. Mas os pombos pareciam não se importar com nada disso. Cuidavam dele como se fosse um tesouro. Embalavam-no e mantinham-no aquecido, sacrificavam-se para trazer insetos para o ninho para ele comer.
Dizia a minha mãe, cheia de sabedoria popular, que parir é dor e criar é amor, mas criar é também, até ao fim, uma dor indissociável do amor, como tão bem comprova “A Filha Única”.
A Filha Única, de Guadalupe Nettel, Dom Quixote, abril de 2024, tradução de Ana Maria Pereirinha
Augusta B. Ou as Jovens Instruídas 80 Anos Depois
por Paula Mota
2024-07-17Creio que Agustina Bessa-Luís, que se queixava de ser mais conhecida do que lida, corre agora o risco de passar a ser um mito do nosso imaginário e não tanto uma escritora do nosso universo literário. Depois de ter ganhado estatuto de lenda por ter derrotado grande parte da Geração X no ensino secundário (liceu para mim), torna-se agora fonte de inspiração do mais recente livro de Joana Bértholo, devido à arrojada ideia de, aos 22 anos, colocar um anúncio no jornal em busca de um correspondente.
JOVEM INSTRUÍDA desej. corresp. c/ pessoa intelig. e culta.
Não tendo propriamente inventado o precursor de uma aplicação de encontros, esta decisão, nos anos 40, serve de base para estabelecer paralelismos com as actuais plataformas digitais através da protagonista de “Augusta B. Ou as Jovens Instruídas 80 Anos Depois”, uma jovem também de 22 anos, Augusta B., “sua quase homónima”, que procura incessantemente um match no telemóvel.
Augusta vivia imediatamente interessada no outro, em sentir-se vista, desejada, pertencer, em entender as sinapses irrefreadas do seu coração e do alheio.
Devido a um desaire amoroso, conhece Raquel, estudiosa, grande leitora, um pouco anti-social, que é basicamente a sua antítese.
Mais inusual que os hábitos de leitura – que nem no século anterior eram inteiramente modernos – era o desinteresse de Raquel pelo sem-fim digital. Tinha, como todas, um smartphone (…) mas não tinha redes sociais, nem interesse nelas, sobretudo não nas plataformas ostensivamente amorosas.
Tal como no conto “Natureza Urbana”, também aqui temos a magia da literatura na formação e acção das personagens e, numa obra fortemente intertextual, há citações da própria Agustina para corroborar ou contrastar as relações interpessoais 80 anos depois.
“A correspondência dava uma expectativa do tipo humano que se ia encontrar. O que é muito mais sólido. A palavra tem uma força que não tem a presença, nem as hipóteses que a presença física pode dar. É muito mais poderosa.”
Augusta compreendia absolutamente esta citação, mas não num sentido epistolar. Tudo se desenrolava num chat, e era no chat que ela avaliava com que tipo de pessoa estava a lidar.
Pressionada por Augusta, Raquel, que até aí apenas usava a aplicação do GoodReads, pondera inclusive abrir um perfil do Tinder totalmente composto por citações de Agustina, sem saber que a amiga…
Esboçava um esquema muito mais à frente, porque atrás; muito mais na vanguarda, porque na retaguarda; totalmente futurista, porque antiquado:
- Qual perfil, Raquel? Temos é de pôr um anúncio no jornal!
- Num jornal…? Ninguém lê jornais…
Raquel parecia não ver o que ela via: a força do gesto de Agustina.
Mais fácil dizer do que fazer e segue-se, então, a autêntica saga da protagonista para publicar um anúncio semelhante ao original. Porque os tempos de facto mudaram, o resultado não é brilhante e depois de ver a folha de anúncios do único pasquim a que tiveram acesso, fico a pensar no que será pior, se isso ou a algaraviada de termos ocos que caracterizam o mundo amoroso digital.
Não se deixava perturbar pelo aranzel de anglicismos que mapeavam a crescente possibilidade de situações desagradáveis, e muito disseminadas, do ghosting ao zombieing, passando por todas as formas de breadcrumbing, benching, orbiting, stashing, a agressiva ambiguidade do love bombing aos ardis criminalizáveis do catfishing.
Não me acontece muito, mas hoje sinto alívio por não ter 22 anos.
Augusta B. Ou as Jovens Instruídas 80 Anos Depois, de Joana Bértholo, Caminho, Junho de 2024
Puro
por Paula Mota
2024-07-05Imagina se toda a gente tivesse os dentes sadios de um negro? Os ossos dessa gente são valiosos. Mas da pele, a gente não precisa.
“Puro” é, pelo seu cariz histórico mas mais pelas imagens que evoca, uma história de terror. Baseando-se num execrável movimento real do início do século XX no Brasil, o seu conteúdo só podia ser chocante e arrepiante, no entanto, Nara Vidal cria episódios grotescos que são geralmente aplacados por uma escrita apurada e uma técnica narrativa original e eficaz.
Olavo explica
sou louco pelo meu filho. Ícaro é um menino bom, mas tem muitas limitações. (…) Fomos abençoados com Ícaro.
(…)
Olavo pensa
como essa criança baba, tropeça, me dá vergonha. Voa, Ícaro, voa.
Santa Graça é uma cidade definida pelo racismo e pelo capacitismo, onde levam à letra o Artigo 138 da Constituição de 1934 (“Incube à União, aos Estados e aos Municípios estimular a educação eugênica”) numa altura em que se seguia com entusiasmo o movimento eugénico no Brasil, que visava alcançar a pureza da raça branca, impedindo a miscigenação e a deficiência.
Lázaro fala
Ícaro, sai dessa janela, retardado. Deixa só eu crescer mais um pouquinho e vou virar político. Vou levar você lá pra casa do pinel. Manda a Íris acabar logo o serviço aí porque tem chão pra ela lavar aqui. Quem sabe hoje ela lava direito aquela mão preta dela e fica limpa e pura? Íris preta e suja. Ícaro retardado.
Num casarão sinistro vivem três velhas irmãs que um dia encontraram um bebé abandonado, a quem deram o simbólico nome de Lázaro, que “nasceu de ninguém querer”. Em frente, mora Ícaro, um rapaz que vive com as sequelas neurológicas de ter sido abanado pelo pai em bebé, numa casa em que a única pessoa que o acarinha é a empregada negra, Íris.
Íris pensa
lá se foi esse menino pra cama, amarrado e cheio de remédio. (…) Não queriam de jeito nenhum que eu ficasse com o menino. O menos contato possível era a recomendação médica conforme explicitavam uns papéis vindos de São Paulo. A gente aceita porque a vida é assim, mas dá vontade de matar essa gente, isso dá.
Gostei muito de “Puro” por retratar uma corrente social no Brasil que eu desconhecia por completo, ainda que o considere um pouco maniqueísta, em que as únicas personagens boas eram o menino deficiente e a empregada negra, já que todos os brancos fisicamente aptos eram seres hediondos, com a agravante de os membros da Igreja, por mais críticas que a instituição mereça à luz das notícias dos últimos anos, serem todos depravados.
Só mais 30 segundos para apreciar a capa desta obra de Nara Vidal. É esteticamente bonita num contraste entre branco e preto, tão essencial a esta história, e remete para uma imagem comovente de Íris, a mãe de um nado-morto, fruto da esterilização forçada.
Um anjinho de cara preta.
Puro, de Nara Vidal, Relógio d’Água, Dezembro de 2023
Baumgartner
por Paula Mota
2024-06-17Viver é sentir dor, disse para consigo, e viver com medo da dor é recusar viver.
Tudo começa com uma simples caçarola esquecida ao lume, o ponto de viragem nos últimos nove anos que Baumgartner viveu no estado de torpor que se seguiu à morte inesperada da sua mulher, Anna, poeta e tradutora de francês, espanhol e até português.
Dou graças a Deus por todas aquelas belas sonatas matinais quando era acordado pelo som dos dedos de Anna a martelar as teclas, ou seja, pelo som da mente de Anna a cantar através dos dedos enquanto martelava as teclas, e depois de um mês a viver sozinho na casa vazia tinha acabado de sentir tanto a falta daqueles sons que de vez em quando entrava na sala dela, sentava-se diante da máquina silenciosa e dactilografava alguma coisa – qualquer coisa – só para voltar a ouvi-los.
A dor é tão intensa e paralisante que a compara a uma amputação.
Agora é um coto humano, um meio-homem que perdeu a metade de si que o fizera completo, e sim, os membros em falta continuam no sítio, e ainda doem, doem tanto que por vezes sente que o seu corpo está prestes a pegar fogo e consumi-lo imediatamente.
Os dois primeiros capítulos caracterizam-se por um olhar restrospectivo imbuído numa enorme apatia e nostalgia, em que vemos como o protagonista ainda não foi capaz de superar a perda da mulher. Baumgartner está preso ao amor da sua vida, indeciso entre a eliminação de todos os vestígios de Anna e a cristalização da vida em comum.
Até então, não tinha compreendido quão dividido tem estado relativamente a tudo quanto diz respeito a Anna, como desde o princípio a tem repelido e ao mesmo tempo se tem mantido preso a ela expurgando a casa de todos os resquícios dela e no entanto mantendo a sua sala de trabalho intacta.
Depois de um sonho revelador, há uma mudança de engrenagem no terceiro capítulo, com um olhar que agora se torna prospectivo, com a presença de um novo amor e a ideia para um novo livro, “Os Mistérios do Volante”.
E é assim que Baumgartner redescobre os prazeres estimulantes, propriocetivos, do movimento, o simples ato de pôr um pé à frente do outro e propulsar-se através do espaço, a totalidade do seu corpo alinhada pelos ritmos paralelos da batida do coração, da expansão e contração dos pulmões, do movimento firme das pernas, esquerdo-direito-esquerdo-direito e quando começa a agir naturalmente nos dias que se seguem, sente uma confiança cada vez maior em si mesmo para continuar a atravessar o vasto prado interior que se estende à sua frente.
Em chegando aos últimos capítulos, ambos os olhares confluem. Baumgartner dá um pulo ao passado recordando a história de vida dos pais mas projecta-se para o futuro com a chegada de uma estudante que pretende fazer uma tese sobre a obra de Anna, culminando num final à la Paul Auster, obviamente.
Desde que li “O Livro das Ilusões”, o meu preferido do autor, que procuro outro que me cause uma sensação parecida, e “Baumgartner”, de facto, esteve lá quase. Atrevo-me a dizer que Paul Auster partiu em grande estilo.
Quando chegar o fim que ao menos lhe seja concedida a dignidade de o seu coração parar em pleno esforço de produzir uma última frase da sua lavra, de preferência as palavras finais de um sonoro vão-se foder dirigido aos loucos famintos de poder que governam o mundo.
Baumgartner, de Paul Auster, ASA, Outubro de 2023, Tradução de Francisco Agarez
Eu Matei um Cão na Roménia
por Paula Mota
2024-06-06Todos os animais falam – disse eu. O que é que estás a dizer? – riu-se Ovidiu. Claro que falam, outra coisa é nós não os conseguirmos entender – disse eu. Tu de certeza que os entendes, porque és professora de línguas e vens do continente dos papagaios que falam – disse ele.
Para a leitora que se insurge sempre com episódios de crueldade contra os animais, este livro poderia parecer um contrassenso só pelo seu título, mas garanto que nenhum animal foi maltratado no decurso desta história passada na Roménia, com a excepção daquela que também é a nossa realidade: animais praticamente ao abandono nas zonas rurais e vítimas de atropelamento em estradas.
Foi sobretudo a curiosidade e o espanto que me trouxeram a esta obra que marca o regresso da editora Europa-América depois da declaração de insolvência em 2019. Quem cresceu nos anos 80 e 90, como eu, teve acesso a muitos clássicos a preço acessível graças a livros de bolso em edições baratuchas, de papel manhoso e traduções discutíveis, mas o novo proprietário desta chancela deu-lhe uma volta de 180 graus, a avaliar pela estreia, “Eu Matei um Cão na Roménia”, da peruana Claudia Olloa Donoso, uma edição floppy de bom papel e vertida para português por dois tradutores respeitados, Cristina Rodriguez e Artur Guerra. “Eu Matei um Cão na Roménia” divide-se em quatro capítulos (cão morto, matilha, latidos e matacães) e é, em grande parte, uma road trip pela Roménia levada a cabo por dois amigos, uma professora de línguas latino-americana e um motorista de autocarros romeno, ambos imigrantes na Noruega.
Como não hei de eu falar de forma estranha se tenho uma confusão mental na cabeça com as línguas, há anos e anos que penso em espanhol, trabalho em norueguês e a única coisa que faço em romeno é sonhar.
Mihai precisa de resolver uns assuntos na tua terra natal, pelo que convida a professora, de baixa médica por depressão, para o acompanhar, na tentativa ingénua de que mudar de ares a fará largar os antidepressivos, mas não é esse o intento dela…
Tive a sensação de que me estava a preparar para morrer e fiquei envolvida por uma certeza. Uma espécie de satisfação estranha, quase festiva, mas simultaneamente cinzenta e silenciosa, sem serpentinas nem excitações, como a tranquilidade que chega ao ter concluído algo próprio e conhecido, algo entediante como um trabalho de anos, um ritual de passagem, a cessação do labor, pôr um ponto final, um apagar a luz e fechar.
…e uma vez na Roménia, desaparece a cumplicidade entre eles e Mihai passa a ser Ovidiu, um emigrante arreigado nos costumes do seu país de origem, um homem tacanho. Inesperadamente, rodeada de falantes de uma língua que não compreende, é a mítica bondade de estranhos que vale à professora, que comunica com eles através do espanhol e do italiano que estes aprenderam a trabalhar no estrangeiro, pelo tradutor do telemóvel ou, quando tudo mais falha, por simples gestos e sorrisos. Nesta obra sobre a dificuldade de comunicação inerente ao isolamento da depressão e às diferenças linguísticas, levantam-se valores nobres como o respeito pelas outras culturas, a simbiose com os animais…
E vem-me então com o porque é que não a deixo levar um cão romeno, e diz-me que leu uma notícia sobre vários turistas que vieram à Roménia para levar cães, e que a ela não lhe parece mal (…) e vem-me com esta de que o cão a tranquiliza, que lhe faz bem, que é como usar um saco de água quente.
…e a sororidade.
A minha língua leu o relevo da imagem sagrada enquanto imaginava que beijava todas as mulheres, as da Roménia e todas as outras, todas aquelas que a minha memória tinha registado ao longo da minha vida, todas aquelas mulheres com nomes e imagens. Eu nunca tinha beijado uma mulher, mas quando pus os lábios em cima do ícone, beijei todas as mulheres: Eva, Salomé, Miriam, Abigail, Marta, Débora, Madalena.
E quando a protagonista se retrai para um silêncio definitivo, a narração passa a capítulos alternados entre a verborreia obscena de Ovidiu e os monólogos internos cada vez mais líricos da professora.
O silêncio dessa tarde era uma membrana, o verniz selante de um quadro de museu, um grupo de bichos paralisados para a eternidade numa resina transparente, a mica de plástico que protege as fotografias de um álbum de fotos cheio de mortos.
Eu Matei um Cão na Roménia, de Claudia Ulloa Donoso, Europa-América, novembro de 2023, Tradução de Cristina Rodriguez e Artur Guerra
Eu canto e a montanha dança
por Paula Mota
2024-05-29E agora dirá algumas coisas. As que se podem dizer de enfiada, como uma corda. (…) As que têm de se arrancar como se fossem cebolas. (…) As que queimam. As que têm de se dizer a olhar para as árvores, e as que têm de se dizer a olhar para as ervas e as que têm de se dizer a olhar para as nossas próprias mãos.
“Eu canto e a montanha dança” é um livro original e lírico, uma ode prodigiosa aos Pirenéus catalães, à simbiose que existe entre as suas gentes, os seus fantasmas e a sua fauna e flora.
Eu vejo tudo; os caminhos e as árvores, o céu e o Sol, as manhãs e as noites e as pedras e as urtigas e a bosta das vacas e os cumes, e as rochas, e o fumo ao longe, e os sendeiros de javali… tudo a rimar. Trago a poesia no sangue. E conservo todos os poemas dentro da memória, como numa cómoda arrumada.
Nesta obra, a catalã Irene Solà escolhe a cadeia montanhosa que separa a Espanha da França não só como cenário mas também como protagonista, incluindo até um capítulo extremamente criativo da sua formação geológica…
O terrível despertar.
… sendo os seus habitantes os intervenientes que com ela contracenam numa vida dura ditada pela geografia acidentada e pelo isolamento dos povoados, sem esquecer os seus costumes, as suas lendas e até o seu papel na fuga dos republicanos após a derrota na Guerra Civil.
Os camponeses sempre encontraram armamento e coisas que os soldados que batiam em retirada deixaram para trás. E sabes o que é que fazem os camponeses, que são os sábios destas terras? Sabes o que é que é que fazia o teu avô e o que é que fazia eu próprio quando encontrávamos uma coisa destas? Olhar para o outro lado.
Nas montanhas, seguimos perspectivas tão inusitadas como a das nuvens, a dos cogumelos ou a dos corços, que contribuem para a atmosfera mágica e para o desenrolar da narrativa que segue várias personagens, ainda que se centre sobretudo na família que vive na casa de Matavaques, massacrada em diferentes momentos pelo infortúnio…
Embora às vezes uma mulher queira deixar de viver. Quando o nosso marido é atravessado por um raio como se fosse um coelho. Quando uma mulher fica com o coração esburacado por um ramo, mas não morre. Uma mulher quer deixar de viver. Mas então obrigam-na a viver. As crianças gritam e obrigam-na a viver. O velho tem fome e reclama. As pessoas da aldeia levam-lhe feijão e curgetes para a obrigar a viver. E ela deixa de ser mulher e converte-se em viúva, em mãe. Deixa de ser o centro da sua vida, deixa de ser a seiva e o sangue, porque a obrigam a renunciar a tudo o que queria.
…mas também nos seus vizinhos, uns reais, que não resistem ao apelo do regresso às montanhas ou nelas se refugiam, outros mais incorpóreos, como as mulheres de água, um grupo de mulheres enforcadas por suspeitas de bruxaria.
E quando a Eulália lhes disse que a Joana era a mestra que trazia os fantasmas e preparava os unguentos com que nos besuntávamos, e a mestra que fazia os venenos de todo o país, e a que invocava o bode da Biterna e urdia todas as outras maldades que as bruxas fazem, e nós a três éramos as suas discípulas, a Joana não mexeu uma única palha.
“Eu canto e a montanha dança” é uma composição polifónica e luxuriante sobre uma natureza ora agreste ora delicada, a das montanhas e também a daqueles que a habitam.
A maior parte dos homens são mentirosos. Os homens que inventam histórias e os que as contam. Os que nos recortam, e nos comprimem e nos enfiam dentro das palavras, para que sejamos como a história que querem contar, com a moralidade que querem contar. Recortadas e empequenecidas e metidas nas suas cabecinhas. Não é por serem mais idiotas e diminutas que são menos cruéis.
Eu canto e a montanha dança, de Irene Solà, Cavalo de Ferro, Abril de 2024, Tradução de Rita Custódio e Alèx Tarradellas.
O Estucador Assobiador
por Paula Mota
2024-05-08O mundo está cheio de visões que esperam ser vistas. As presenças estão lá, mas falta o nosso olhar.
Vivo na zona antiga de um subúrbio, o bairro mais arborizado numa cidade caracterizada pelo betão, onde, por isso, muitas pessoas passeiam os seus cães, mas fico sempre desiludida e um bocadinho crispada quando as vejo de trela numa mão e de telemóvel na outra, quando há tanto para olhar em redor e mesmo para o alto, visto que os prédios são baixos e espaçados entre si. Se também eu andasse de nariz colado ao telemóvel na rua, não veria a exuberância da passagem das estações, não veria os cogumelos no outono, os jacarandás floridos na primavera, o ninho de falcões sobre uma caixa de estores, um pica-pau de passagem, uma garça no descampado ou até um ouriço-cacheiro a sair do seu esconderijo ao anoitecer. E como isso alegra o meu dia! Para a maioria, esse olhar sobre a natureza e esses avistamentos são ninharias, mas para pessoas como Christian Bobin são momentos preciosos que enriquecem a vida.
Contemplar é uma maneira de cuidar. É romper com tudo o que em nós se assemelha a cobiça, expetativa ou projeto. Olhar e emocionar-se com a semelhança entre o que temos diante e nós próprios.
Bobin é geralmente conotado com a religião e a espiritualidade, mas não creio que seja isso que revista a contemplação que refere nesta obra que pouco mais é do que um panfleto. Bobin não fala como um filósofo nem como um monge num retiro, porque não se refere a nada de transcendental mas sim às coisas banais do dia-a-dia, àquilo por que passamos habitualmente sem enxergarmos, sem interiorizarmos.
Os contemplativos, sejam eles quem forem, podem ser poetas reconhecidos como tal, ou pode ser um estucador a assobiar como um melro numa sala vazia ou uma jovem a pensar noutra coisa enquanto lava a roupa.
O “Estucador Assobiador” é um livro ambivalente: perante o ódio, a voracidade do avanço tecnológico e a crise de valores, o autor é optimista…
Voltaremos às coisas vivas e verdadeiras. (…) O homem não é mais malvado hoje do que ontem, apenas está mais perdido.
…mas há uma enorme dose de fatalismo na sua visão, advogando a necessidade de bater no fundo para se poder fazer tábua rasa.
É preciso que a escuridão se acentue ainda mais para que as primeiras estrelas – as primeiras, isto quer dizer que haverá outras – apareçam. É possível que uma crise económica seja uma graça, uma sorte. Isso vai desolar-nos, vai arrancar-nos da embriaguez, do irreal, da avidez, do consumo. Mas ainda não estamos aí.
Bobin foi premiado pelo conjunto dos seus escritos pela Academia Francesa, em 2016, somente seis anos antes da sua morte, exactamente na mesma região onde nasceu 71 anos antes.
É um dogma atual que a vida deve ser fácil. Quem disse que a vida deve ser fácil e prática? É prático amar? É prático sofrer ou esperar? A técnica afasta-nos destas coisas e fazer crescer uma lepra de irrealidade que invade silenciosamente o mundo.
Estucador Assobiador, Christian Bobin, El Gallo de Oro Ediciones, Tradução de Maria de Azeredo, Novembro de 2023
Lenços pretos, chapéus de palha e brincos de ouro
por Paula Mota
2024-05-03“As Mulheres do Meu País” de Maria Lamas é o ponto de partida de “Lenços pretos, chapéus de palha e brincos de ouro”, é o GPS de Susana Moreira Marques ao percorrer os mesmos caminhos que a obra publicada em fascículos entre 1948 e 1950...
Talvez todas as viagens – no país ou fora do país – sejam feitas para termos a certeza de onde vimos.
...é o texto que compôs depois de ter acompanhada a cineasta Marta Pessoa na realização do documentário “Um Nome Para o Que Sou”, é um livro escrito com a sensibilidade que já lhe reconhecera em “Agora e na Hora da Nossa Morte”, desta vez sobre a condição feminina de hoje em contraste (ou não) com aquela época, a “história passada” recordando a sua avó, a “história futura” pensando nas suas filhas.
Muitas das mulheres com quem Maria Lamas fala não sabem ler. Algumas apenas sabem escrever o nome. Algumas foram à escola mas não chegaram a fazer a quarta classe. (...) Não escrevem cartas de amor. Não escrevem cartas a parentes distantes, a não ser por mão alheia. Não escrevem diários. Não escrevem impressões. Não escrevem histórias. Não escrevem poemas de juventude. Não escrevem memórias. Não escrevem nada para que depois fique.
E em paralelo temos a voz intimista de Susana Moreira Marques.
Embora não possa escrever por ela
Tudo o que escrevo
É para compensar o que a minha avó não escreveu
A avó de Susana Moreira Marques, também ela pouco escolarizada, é um dos eixos desta viagem, ainda que a neta não passe na terra onde ela nasceu, mais uma das mulheres silenciosas e invisíveis, praticamente sem registos fotográficos da sua presença, que como muitas avós de então, e dos dias de hoje, são um complemento ou até mesmo um substituto total das mães na rotina diária das crianças.
Algumas mulheres preferem, ainda agora, não falar. Reconhecem, de entre tantos direitos conquistados, o direito à continuação da invisibilidade. (...) O livro de Maria Lamas não terá chegado à minha avó. Os livros onde pessoas como a minha avó apareciam não chegavam às pessoas como a minha avó.
O que leva a autora a concluir: “Será que é isto que quer dizer que o pessoal é político?”
Eu acredito que sim, no fundo, tudo é político, e isso é flagrante no facto de o livro de Maria Lamas não estar disponível para que eu pudesse conferir as suas palavras e visualizar as inúmeras fotos que tirou a mulheres de todo o país há mais de 70 anos. Teria sido um cotejo sem dúvida enriquecedor, se não existissem menos de seis exemplares na maior rede de bibliotecas do país, a de Lisboa, quase todos eles de acesso reservado ou de somente consulta nas instalações. Porque são edições muito antigas, poder-se-ia pensar. Mas não, já que houve uma reedição em 2002. Onde estão portanto essas raridades? Foram guilhotinadas. Política editorial portanto.
A mesma política editorial e de perseveração de acervos que sempre divulgou e guardou os livros dos contemporâneos de Maria Lamas, mas não o seu. Nem na biblioteca municipal mais modesta faltam decerto os clássicos modernos de Alves Redol, Fernando Namora, Manuel da Fonseca e Soeiro Pereira Gomes entre outros, e no entanto...
Ela tem também afinidade com o movimento neo-realista mas os neo-realistas são todos homens. Escrevem romances épicos, maioritariamente sobre heróis masculinos, sejam eles pescadores, camponeses, meninos operários ou homens feitos que emigram para terras distantes. Ela tem a intuição de não fazer o mesmo: para escrever um romance épico sobre as mulheres, talvez fosse preciso primeiro provar que elas mereciam o épico.
Lenços pretos, chapéus de palha e brincos de ouro, Susana Moreira Marques, Companhia das Letras, Abril de 2023