A Opinião de Paula Mota
Quem Matou o Meu Pai
2025-12-09Hollande, Valls, El Khomri, Hirsch, Sarkozy, Macron, Bertrand, Chirac. A história do teu sofrimento tem nomes. A história da tua vida é a história dessas pessoas que se foram sucedendo para te abater. A história do teu corpo é a história desses nomes para o destruir. A história do teu corpo acusa a história política.
Se Édouard Louis tem como cartão-de-visita a frase “toda a minha escrita é política”, não é de admirar que não tenha pejo em apontar o dedo a presidentes e ministros franceses, tanto à esquerda como à direita, pela debilidade física, psicológica e até moral do seu pai.
Já não podes conduzir, já não te é permitido beber álcool, já não consegues tomar banho ou ir trabalhar sem correres um enorme risco. Tens pouco mais de 50 anos. Pertences àquela categoria de seres humanos a quem a política reserva uma morte precoce.
Quem Matou o Meu Pai foi publicado um ano depois de um artigo que surgiu na primeira página do “New York Times”, na véspera das eleições presidenciais francesas de 2017, “Why My Father Votes for Le Pen” [“Por que Razão o Meu Pai Vota em Le Pen”].
Sabia pelos livros dedicados à mãe que Louis escreveu mais recentemente que a relação com os pais até sair de casa aos 16 anos, para ir estudar noutra localidade, foi complexa e tensa, sobretudo por o considerarem efeminado, mas ainda mais conflituosa com o pai, que era um alcoólico, um pequeno déspota no seio da família e um exemplo acabado da masculinidade tóxica.
A masculinidade - não te comportes como uma rapariga, não sejas paneleiro - equivalia a sair da escola o mais depressa possível para se provar aos outros que se era forte, o mais cedo possível para se mostrar que se era insubmisso, e, portanto, pelo menos é o que deduzo, ao construir-se a própria masculinidade era-se privado de uma outra vida, de um outro futuro, de um destino social diferente que os estudos poderiam tornar possível. A masculinidade condenou-te à pobreza, à falta de dinheiro. Ódio da homossexualidade = pobreza.
Talvez por se ter munido de outras ferramentas, como os amigos que formam agora a sua nova família e o curso de Sociologia que lhe expandiu os horizontes, talvez por se ter conseguido realizar profissional e pessoalmente, talvez por ter percebido que não é a única vítima do sistema, tenha conseguido sublimar o seu rancor e substituir parte dele pelo afecto que algumas pessoas maltratadas conseguem recuperar pelos pais quando chegam a adultos. Um dos mecanismos de que Louis se socorreu foi, sem dúvida, o redireccionar a sua raiva do indivíduo para o Estado.
A tua vida prova que não somos o que fazemos, mas que, pelo contrário, somos o que não fazemos porque o mundo ou a sociedade nos impediram. Porque aquilo a que Didier Eribon chama “vereditos” se abateu sobre nós – gays, transexuais, mulheres, negros, pobres -, e fez com que certas vidas, certas experiências, certos sonhos se nos tornassem inacessíveis.
Quem Matou o Meu Pai, de Édouard Louis, Elsinore, Setembro de 2025, Tradução de Luísa Benvinda Álvares
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