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A Opinião de Paula Mota


Não Dormir

2026-01-13

Os que nasceram antes dos anos 1990 lembram-se do tédio. Para viver, era preciso sair do quarto a todo o custo. […] O tédio é substituído pela impaciência.

O verdadeiro sono dos justos é, decididamente, uma coisa complexa, frágil e mutável, e é sobre isso que discorre Marie Darrieussecq, de quem só tinha lido Estranhos Perfumes, uma das obras mais incómodas de horror corporal que habitam nas minhas estantes e que calculo que seja fruto de um pesadelo ou da sua mente insone.

Ocultando-se nas nossas águas furtadas, escondida debaixo dos nossos colchões, enfiada entre as ripas do tempo, de onde vem a insónia? Dos fantasmas? Do cérebro? Das dores da alma? Do mundo? Quem é que não dorme quando eu não durmo?

Não Dormir é um relato que abrange 20 anos de insónias, a busca de soluções através de tentativa e erro e noctívagas viagens pelos livros de outros insones, cujo patrono é Franz Kafka. Darrieussecq polvilha o seu texto com citações literárias…

A literatura é toda ela formada por paraísos perdidos e insónias. O erro dos insones é acreditar que se pode, não reencontrar o sono, não sonhemos, mas recuperar o sono perdido. Ora, o sono perdido nunca se recupera. O sono perdido, tal como o Paraíso, é uma Idade de Ouro e uma nostalgia.

…mas também referências cinematográficas e musicais, mais precisamente com os nomes daqueles que combateram insónias e outros demónios com a artilharia pesada:

Quantas estrelas morreram assim, na esperança de adormecer? Michael Jackson (Lorazepam e Propofol), Prince (Fentanil), Jimi Hendrix (álcool e 9 cápsulas de Seconal), Judy Garland (álcool e 10 cápsulas de Seconal)… E depois, puros produtos do matadouro hollywoodesco, um número infinito de starlettes.

Até lhe ser diagnosticada a hipervigilância por uma sonologista, Darrieussecq tentou todos os recursos pensáveis e impensáveis para invocar o sono: um cão para caminhadas, tisanas, acupunctura, osteopatia craniana, psicanálise, ioga, jejum, hipnose, álcool, ASMR, gravity blanket e outros métodos com nomes estranhos, dois casamentos (teve graça aí), a literatura (infalível comigo) e, obviamente, o álcool e os soporíferos. Obedecendo, então, a uma rígida higiene do sono que implica usar a cama com um único propósito e num único horário, a autora menciona um facto histórico que sempre achei curioso.

Na Idade Média […] as pessoas iam para a cama ao pôr-do-sol. Era a primeira noite. Acordavam algumas horas depois, acendiam o fogo, comiam, faziam amor, conversavam. Depois, tornavam a adormecer para a segunda noite. Era um ritmo normal.

Não Dormir é uma obra bem pensada e consubstanciada, ainda que pudesse ser mais curta, já que a inclusão dos últimos capítulos parece um tanto forçada. Abordando causas (muito meritórias) que lhe são caras também por formação, visto que é psicanalista, aborda o assunto do sono em situações de sem-abrigo e de trauma, bem como os problemas que podem tirar-nos o sono, como a nossa relação predatória com os outros seres vivos.

É preciso amar profundamente a Capela Sistina, a Pirâmide de Quéops e o som de Coltrane e o traço de Shi Tao e toda a literatura para continuar a amar os homens. […] E não nos tira um pouquinho o sono dispor dos animais como objectos? Ou fingir que há nós e os outros? Não nos impede isso de dormir, de agir como se eles não existissem?

Não Dormir, de Marie Darrieussecq, Livros Zigurate, Julho de 2025, tradução de Diogo Paiva

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