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A Opinião de Paula Mota


A Nossa Hora

2026-03-06

A escrita talvez me ajude a compreender. Não quero voltar a Kramatorsk, só escrever sobre Kramatorsk. Não sei o que mais fazer. Nada. Sento-me e escrevo. Mesmo que não queira. Obrigo-me a escrever. Que mais posso eu fazer?

Quando chega a nossa hora? É algo que está escrito ou depende de nós? No dia 27 de Junho de 2023, às 19h28, a alguns quilómetros da frente de batalha no Donetsk, se não tivesse trocado de lugar com a escritora Victoria Amelina por ouvir mal do ouvido direito, talvez tivesse chegado a hora de Héctor Abad Faciolince, quando um míssil russo atingiu uma pizzaria, matando 13 pessoas.

Nos últimos anos, depois de sofrer um achaque atrás do outro, tendo padecido de doenças relativamente sérias, sentia cada vez mais que a velhice era horrível e que me estava a despedir da vida aos poucos, sentido a sentido. Sempre que me faziam o célebre questionário de Proust, eu respondia a mesma coisa na última pergunta: Como é que quer morrer? Percebendo que estou a morrer, pois a morte é a última experiência da vida.

O que instiga um escritor colombiano de 65 anos, com alguns problemas de saúde, a visitar a zona mais massacrada da Ucrânia depois da passagem por uma feira do livro em Kiev? Passei dois terços desta obra incrédula, quase indignada por Faciolince, num gesto puramente simbólico de solidariedade, basicamente em resposta a um desafio de outro homem, ter arriscado a sua vida desta forma. Eu sei que os homens jovens morrem mais do que as mulheres por actos impensados, mas pensava que a idade trouxesse um certo bom senso. Das cinco pessoas que formavam o seu grupo, era ele o mais inexperiente e incauto em situações de conflito. Dima, o motorista, era já um guia calejado neste teatro de guerra; Sergio Jaramillo, além de Alto-Comissário para a Paz e vice-ministro da Defesa da Colômbia, foi o conselheiro de segurança nacional responsável pelas negociações com as FARC, o maior grupo de guerrilha do país; Catalina Gómez, calejada repórter de guerra, tinha nervos de aço; e Victoria Amelina, escritora e activista ucraniana, achava que era sua obrigação não só levar uma vida tão normal quanto possível, como documentar as atrocidades causadas pelas forças russas.

A Victoria intitulou o seu diário, que tencionava polir e terminar em Paris, “Olhando para Mulheres que Olham para a Guerra”. Então, eu vejo, com os olhos da imaginação – e com uma fotografia que a Catalina enviou na qual estava a dar a mão à Victoria, que tinha um oxímetro no dedo indicador -, as duas mulheres a viajarem juntas numa ambulância, uma a morrer e a outra a ver morrer a amiga. A Victoria não fugia e a Catalina não foge da guerra. São mulheres como elas que nos ensinam a vê-la, a perceber a sua dor, o seu sofrimento inaudito, a terrível injustiça que os homens fortes (anteontem Estaline e Hitler, ontem Putin, hoje Trump e Natanyahu, amanhã e depois de amanhã não sei quem) tentam fazer passar por algo heroico, necessário e, até, paradoxo dos paradoxos, pacificador.

Sendo “Somos o Esquecimento que Seremos” um dos meus livros de memórias preferidos mas tendo desistido de “Salvo o Meu Coração Tudo Está Bem”, sou tentada a concluir que o forte de Faciolince é o registo autobiográfico, sobretudo no que toca a terceiros. Ainda que exprima de forma honesta e condoída o stress pós-traumático e a culpa de sobrevivente que assola tantos que escapam a catástrofes e atentados à vida, enfadou-me um pouco seu solipsismo e os seus queixumes, enquanto as suas palavras sobre a morte estúpida de Victoria, que deixou um filho de 11 anos, me tocaram profundamente.

“As histórias devem salvar-se a todo o custo, saltar de um corpo quase morto para outro vivo. É a sua última oportunidade.” – Victoria Amelina

Apaziguei-me, no entanto, com esta decisão precipitada do autor quando ele próprio se interroga acerca das suas motivações, evocando recordações dolorosas e nunca saradas.

O mistério é precisamente este, o único motivo pelo qual comecei a escrever no meu caderno preto, para tentar compreender a justiça, mas também o absurdo, da minha decisão: eu, que não fizera nada quando mataram o meu pai e me limitei a fugir; eu, que não fora ativista político no meu país, porque é que agora decidia armar-me em ativista a favor de uma nação muito longínqua.

Ainda que eu encare com cepticismo a presença de Victoria Amelina que afirma que o acompanha desde a sua morte, “A Nossa Hora” é uma belíssima homenagem a essa mulher de coragem e também uma confissão extraordinariamente humana e franca, onde Faciolince abre a sua alma com uma vulnerabilidade que admiro e entendo.

Creio que fui à Ucrânia, e depois ao Donbass, para tentar demonstrar, sobretudo a mim próprio, que não era um cobarde. E já no coração do Donetsk e das trevas, em Kramatorsk, a vida voltou a mostrar-me o que sou, o que não posso deixar de ser e o que não perdoo a mim próprio.

A Nossa Hora, de Héctor Abad Faciolince, Alfaguara, Outubro de 2025, tradução de Margarida Amado Acosta

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