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Raízes - Filomena Marona Beja


FIM DE TARDE

2017-09-06

 

 

Eram quatro cadeiras e uma mesa.
Era um sofá e, em frente, o aparelho de televisão.
Era a sala.

Na sala, ela passava a maior parte do dia. Almofada ao canto do sofá, caneca ao lado.
Olhava o tecto, olhava as paredes. A mancha de humidade ao lado da janela, a mosca que se fora enredar numa teia de aranha.
Ninguém para contar o que não acontecia. E as horas, umas atrás das outras.

Um golo de café.
Na lembrança, uma campainha a marcar o intervalo de dez minutos que parava a oficina. Deixavam-se as mesas de corte, as máquinas de costura. Corria-se para os sanitários.
“Despacha-te!”
“Estou aflita...”
“Aflita!”
“Olha... adiantou-se-me a coisa, este mês!”
“Antes isso...”
“...antes isso!
A água remoinhava, as portas batiam. E já se estava na fila diante da máquina das bebidas.
De copo na mão, tornava-se ao giz e às tesouras. Às máquinas que juntavam, cosiam, rematavam.
Por quanto tempo, até à saída do turno?

Era ele quem saía, de manhã, para fazer as compras. Trazia o pão, a hortaliça, alguma fruta, algum peixe.
Carne? Quase nunca.
“Faz melhor não comer”, dizia. “ E ao preço que está...”
Era ele quem governava o que ambos recebiam de reforma.
“É pouco, e tem de ir chegando...”
Quando ele voltava da rua, ela ia para a cozinha. Fazia a sopa e amanhava o peixe, se havia peixe.
“Já quase não sei assar um frango!” – dizia, às vezes.
Entrecosto? O que levava de tempero? E fritar, como se fritava?
Ao passar do meio-dia, punham a sopa na mesa e comiam.
Depois, ela levantava-se e lavava, arrumava os pratos. Voltava para o canto do sofá.
Outro golo de café.
E, se precisava dar algum ponto, ia buscar o dedal, agulha e linhas.

Guardava a caixa da costura no móvel da televisão.
Armário em madeira, baixo, de um modelo que se usara muito noutro tempo.
“Estilo rústico”.
A caixa era de folha, o fundo picado pela ferrugem, tampa amolgada. Tinham-lha trazido de Espanha, cheia de caramelos.
Emparelhava as peúgas que acabara de pespontar.
“Estão a ficar usadas. Mas, por agora...”
Ele ainda as iria calçando.
Recostava-se na almofada e olhava para cima, para o tecto. Depois para a parede, onde a humidade continuava a entranhar-se.

Ele olhava para fora
Arredara da mesa uma das cadeiras e fora sentara-se no vão da janela.
A rua por baixo, feita de gente a pé, postes de candeeiros, um ou outro toldo. Água de uma ruptura a jorrar para as sarjetas. Os carros à pressa pelo asfalto, e um autocarro que dava a curva para outra rua.
A outra rua tinha árvores dos dois lados. E ia dar a um jardim.

Ela tornou a ouvir a campainha.
Agora a do fim do turno, que as punha de corrida para os vestiários. E de corrida, transpunham a porta, o portão.
Ela também corria.
Ao princípio porque era rapariga e ia namorar. Depois mulher casada, com pressa de chegar a casa, compor os desalinhos, fazer o jantar.
Um dia, depois das férias, ela e as outras encontraram as oficinas vazias. Em duas semanas, as máquinas tinham sido vendidas. A fábrica fechada.
Gritos. Vigílias. Desemprego.
“Pois foi...”
Até que chegara a idade da reforma.

Levantou-se para ir buscar mais café.
Voltou.
Sem deixar de olhar a rua, ele disse que o dia estava no fim e era Outono.
Engano:
“Já é noite... e o Outono só acontece com o cair das folhas”.
Com o vento que as leva, e outras coisas que desencantados e poetas costumam inventar.
Não. Não era Outono.
Mas talvez já se estivesse chegado ao Inverno.


Ele chamava-se Camilo. Ela Cassilda.
Alguém lhes quer dar outros nomes?

 

Filomena Marona Beja,
Sintra / Outubro, 2016.

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