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Raízes - Inês Botelho


Mulher de salto alto

2018-03-16 14:09:01

Passa. Estou sentado no banco envelhecido do parque e ela passa. Sem pressa, sem vagar. Não me vê, não me olha, segue em frente, cabelo muito arranjado, às vezes solto, às vezes apanhado, rosto mascarado por enormes óculos de sol que lhe tocam os malares e se lhe alastram pelas têmporas. Pode usar camisa ou blusa, o casaco cintado talvez venha vestido ou seguro entre o pulso direito e a pega da pasta preta, fina, leve, por certo vazia para a enfeitar assim feita adereço, pluma. A carteira pende-lhe do ombro esquerdo ou então apoia-se na dobra do cotovelo. E passa. Vem de calças largas ou saias variadas, mas passa sempre, sempre, sempre no seu passo compassado, ritmado, de perna esticada, joelho retesado, pés prolongados em adoráveis sapatos de salto alto.

Uma mulher deve usar sapatos de tacão, largo ou estreito não interessa, tem é de ser dos altos, não altíssimos. Esses tornam-nas ridículas, modelos deformados prestes a quebrar pelos pés; catrapum, pum, pum, estateladas no chão. Desses não. Dos altos. Nem médios nem baixos, que cortam o efeito. Os altos, só isso.

Deus é uma fraude, ou apenas mau artista. Interessa pouco. Falhou, é tudo. Começou bem no colo alto, descendo aos ombros curvos, às espáduas, às planícies que delas escorrem, às colinas alvas de um peito que se acanha a preparar a suavidade do ventre. Triunfou na jarra entre cintura e ancas, perfeita, hipnotizadora, alto de uma cascata de pernas que abrem e encolhem, abrem e encolhem. Corpo delicioso, ondulante, chama de vela bailarina truncada por um pé chato, horrível, terrível, enfadonho.

Mulher devia pairar no ar, suspensa, caminhar leve apoiada em nuvens, não pesada sobre um pé plataforma. Um verdadeiro mestre tê-la-ia talhado infinita. Os pés seriam uma forma delicada, uma estalactite suave de pele, osso e músculo, firme no suporte, erguendo-a, toda ela fuso, árvore, planta. Não esta coisa defeituosa, monstra e concreta, contradizendo o ondular dos braços, seu elegante culminar em ramos afilados. Não, definitivamente não. Melhor que a tivesse deixado sem pés, mutilada mas contínua. Qualquer solução era preferível a esta chapa que irrita a vista. Pelo menos os saltos, criação terrena, provocam a ilusão.

Passa, passa sempre, sem noção, sem alma até. Não me importa. Não te vejo, não a tua vida, os teus dias, tuas questiúnculas desinteressantes e mundanas. De ti, nada quero. Contemplo somente a invocação.

*

Ela vai, vai todos os dias. Nunca o inverso. Quase lhe desconheço o rosto. Ao contrário dele, não ergo o olhar; não preciso. São as pernas e os pés que me fascinam. Posso permanecer quieta, fingindo que desenho, e ela nem percebe.

Uma e outra detestamos pés. Ela usa tacões, eu escondo-os em saias e calças largas o suficiente para os abarcar. Evito rogar-lhes pragas. Seria indelicado já que cumprem a função e me transportam aonde quero. Mas desagradam-me. São empecilhos, um erro, como se a mão do desenhador tivesse guinado no último instante e traçado uma sucessão de linhas horizontais, antagónicas à devida orientação. Logo a seguir a figura anima-se, escapa da folha e da correcção, multiplica-se em obras malfeitas condenadas a galgar as ruas apoiadas em placas.

Conheço quem defenda a imperfeição como veículo para a beleza. Poderá até ser, mas neste caso incomoda-me. Uma boa anatomia, sim, sim, concordo. Uma má estética também. Por isso tapo-os. Experimentei muitos saltos, desisti de todos. Falta-me apetência. Empoleirada em tacões bamboleio desequilibrada, torço-me e contorço-me, invento ângulos estranhos para não cair. Chega de me ridicularizar; mais fácil cobri-los.

Cruzo as pernas sobre o assento, estico as calças para que ninguém os veja expostos e, tábua apoiada nos joelhos, folha presa por molas, desenho. Ele já está acomodado no lugar em frente, aguardando paciente pelo espectáculo. Tem uma face cansada e sem idade, é magro, alto o suficiente. Traja tons básicos, roupas simples. Observa, pensa, rodando a tempos a cabeça. Quando ela surge estaca, o rosto contraído, a boca esquinada para um princípio de raiva. Aparece-me muitas vezes nos trabalhos. Ela jamais. Nem sequer as suas pernas bem talhadas com o término estrategicamente modificado.

Não sei se venho por ela se por ele.

 

Inês Botelho

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